segunda-feira, 25 de abril de 2011

ENTREVISTA QUE FIZ COM ANDRÉ CARNEIRO, EM 10/11/08

ENTREVISTA:

Ademir Pascale: Não poderia deixar de lhe agradecer imensamente por ter aceito esta importante entrevista comemorativa que atinge a marca de 100 entrevistas que realizei em um período de quatro anos.

Para iniciarmos, gostaria de saber como foi o início de André Carneiro na literatura.

André Carneiro: Infelizmente, não fui influenciado por nenhum parente ou amigo que me incentivasse para as artes e a literatura. Essa circunstancia sempre ajuda e apressa uma carreira. Desde muito criança eu lia muito, de tudo e até revistas argentinas, o portunhol é uma língua que os brasileiros nascem sabendo. Comecei escrevendo crônicas e alguns artigos, só pelo prazer de escrever. Não pensava em publicar. O diretor de um jornal de Bragança (SP), cidade próxima de Atibaia onde eu morava, soube por coincidência e me pediu uma colaboração. Dei uma delas, já pronta. O dono de um jornal de Atibaia soube, pediu-me também. No domingo saíram dois artigos meus, diferentes, um em cada jornal. Daí em diante não mais parei.

Ademir Pascale: Como foi publicar e trabalhar no jornal literário TENTATIVA nas décadas de 40 e 50, com os autores Sérgio Milliet, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinícius de Morais e outros, além de ser citado em grandes jornais e revistas pelos grandes Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gular, Oswald de Andrade, Bernard Lorraine, etc?

André Carneiro: O poeta e articulista político Domingos Carvalho da Silva “descobriu-me” pela colaboração em Atibaia. Estávamos na ditadura de Getúlio. Felinto Müller, o chefe de Policia, tinha expatriado a mulher do comunista Luiz Carlos Prestes para a Alemanha de Hitler, onde morreu em campo de extermínio judaico. Eu atacava a ditadura com incrível coragem. Domingos impressionado convidou-me para colaborar em um jornal de São Paulo, onde logo conheci os maiores escritores e artistas. Fiquei amigo de Oswald de Andrade. Seja anotado que minha coragem resultava da minha inexperiência e do jornal de Atibaia ser praticamente desconhecido fora. Logo aprendi que a grande imprensa combatia a ditadura debaixo da maior pressão. Meus “corajosos” artigos de Atibaia, eles não tinham condições de publicar.

TENTATIVA, o meu jornal literário, nasceu de um conjunto de circunstâncias e coincidências, até um certo ponto provocado pela censura ditatorial cerceando a atividade dos melhores jornais do país. Houve uma grande diminuição dos Suplementos Literários dominicais e as revistas literárias praticamente desapareceram. Eu tinha 27 anos. Junto com um amigo com dez anos menos (César Mêmolo) e minha irmã Dulce Carneiro com 18, lançamos de Atibaia um jornal literário com o titulo de TENTATIVA, desenhado pelo grande Aldemir Martins, recentemente chegado do Norte, mas já com bastante prestígio. Quem quiser pesquisar a história de “Tentativa” hoje, pode fazê-lo facilmente. Nas melhores bibliotecas oficiais deste país encontrarão em formato de livro, um fac-simile de todas as edições do meu jornal, feitas pela Imprensa Oficial de São Paulo, trabalho organizado por Araceles Stamatiu, diretora do Museu Histórico de Atibaia, em 2007. Explica-se facilmente a importância logo adquirida pelo jornal. O primeiro número vinha com uma apresentação em manchete de Oswald de Andrade. (A pronúncia correta do seu nome é Oswalde e não Óswald, com acento na primeira sílaba, como no inglês). Em pouco tempo tínhamos correspondentes especiais mandando colaboração de Paris, Lisboa e Buenos Aires, numa tentativa de união com o mundo intelectual sul-americano, fato que, infelizmente não teve nenhuma continuidade até hoje. Tentativa tinha representantes nas principais capitais brasileiras. Nele colaborava a primeira linha dos escritores nacionais, escritores franceses e portugueses.

Ademir Pascale: André Carneiro já foi cogitado para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

André Carneiro: Sim, e na Academia Paulista também. Sempre existe lá o convite de um contemporâneo imortal. O regulamento das duas Academias é semelhante. Tem-se de visitar todos os acadêmicos e pedir um voto a eles. Eu não seria capaz, acho provinciano demais.

Ademir Pascale: A maioria desta nova safra de escritores, não trabalhou com as famosas máquinas de escrever. Para você, como foi essa transição tecnológica entre máquina de escrever e computador?

André Carneiro: Eu escrevia em uma nova e reluzente Remington 12, que pode facilmente ser vista em qualquer museu. Enfrentei depois o 286, para cada operação havia um código. Acho razoável que alguns se justifiquem não terem agüentado o 286, com muita razão. E na Remington, eu enfiava quatro folhas de papel carbono para conseguir cinco copias iguais... inacreditável. Adoro uma história verdadeira transformada em anedota. Uma jovem desesperada precisava copiar uma centena de paginas da tese de mestrado, cujo prazo vencia no dia seguinte. Por coincidência os computadores da família estavam com defeitos. O velho avô disse: eu ainda tenho minha maquina de escrever, está perfeita. A moça suspirou de alívio, descobriu que o teclado era igual. Passou a noite toda escrevendo. De manhã, abraçou o avô: - O senhor me salvou, está tudo copiado, só não encontrei o botão para imprimir, onde fica?

Ademir Pascale: Dentre as inúmeras profissões que você exerceu, foi também fotógrafo artístico, pintor e escultor. Seus trabalhos tiveram grande repercussão internacional. Conte pra gente como foi.

André Carneiro: Herdei do meu pai uma loja de material de construção, ferragens, vidros etc. Sou perito cortador de vidros com diamante. Sem isso não existiria a minha Pintura Dinâmica. Desenhei a planta da minha casa de pedra, em Atibaia, pedra bruta de alto a baixo do lado externo sem nenhuma alvenaria. Nessa casa havia, no sub solo um quarto secreto, que se entrava pelo armário embutido do meu quarto. Como era eu mesmo o fornecedor de todos os materiais, sua entrada era absolutamente invisível... e, constituía, durante o golpe militar um segredo que não poderia ser violado. Já contei algumas historias a respeito.

Fui publicitário, Diretor de Propaganda do Café Pelé, que lancei. Emerson Fitipaldi, o campeão mundial e um outro, de futebol, eram os contratados da propaganda. Exerci o trabalho de muitas profissões; diretor de edições, jornalista, analista e hipnólogo. Escrevi dois livros a respeito, fiz algumas pesquisas experimentais, como parto com data marcada, junto com o cientista Motaury Moreira Porto, que introduziu no Brasil o chamado “parto sem dor”. Participei de alguns congressos internacionais de Parapsicologia, escrevi teses a respeito. Pintei, entrei em uma Bienal, com minha “Pintura Dinâmica”, de minha invenção, fiz fotografia artística, ganhei prêmios nacionais e no estrangeiro. Cinqüenta anos depois, críticos pesquisaram quais eram os fotógrafos pioneiros do modernismo nacional. Identificaram 24, eu fui incluído. Minha foto “Trilhos” foi comprada até pela Tate Galery de Londres. Houve uma solene exposição em São Paulo e no Rio. Essa coleção dos Pioneiros foi vendida para o Itaú Cultural. Também fiz dezenas de capas de livros e até recentemente fotos abstratas como capas. As 29 ilustrações do meu último livro de contos, Confissões do Inexplicável, (600 páginas, segundo o editor, a maior antologia já publicada no Brasil) são colagens da minha autoria.

Ademir Pascale: Além das profissões citadas na pergunta anterior, você também foi cineasta, mas é nítido que dessa pluralidade de profissões, pelo menos no Brasil, você se destacou mais na literatura. Como foi a sua trajetória no mundo da sétima arte?

André Carneiro: Fiz Cinema, como autor e realizador. Um filme meu de pesquisa artística representou o Brasil em um festival na Europa. Do conto “O Mudo”, Julio Silveira, fez um filme artístico com astros da televisão.

Fiz um roteiro para o grande Carlo Ponti, que alguns conheceram como o marido da Sofia Loren. A história era sobre a vida do mais célebre ladrão brasileiro, Meneguetti, cuja biografia resultou em diversos livros. As aventuras que passei para escrever esse roteiro daria um filme, principalmente minha visita ao célebre presídio Carandiru onde Meneguetti passou 18 anos preso. Fui uma grande promessa no cinema, tinha prestígio como roteirista (fiz trabalhos para Roberto Santos, Walter Hugo Cury, etc.), ganhei prêmios de roteiro. Dei aulas e orientei oficinas. Como experiência de vida foi muito grande, mas não cheguei onde eu gostaria. Não tinha vocação para reunir investidores com muito dinheiro, condição primordial para a realização final, que não pode ficar em patamares abaixo de milhões.

Na Espanha um cineasta comprou os direitos de meu conto “Escuridão”, para a realização de um filme.

Espero que tenha sucesso.

Ademir Pascale: Poderia falar um pouco para os nossos leitores sobre a sua magnífica obra de FC “Confissões do Inexplicável” (Editora DEVIR)?

André Carneiro: Uma vez, na França uma entrevistadora pediu-me que falasse do meu país. Eu pensei, começo em Colombo ou no Cabral. Escrevi 600 páginas e percebi que eram “confissões inexplicáveis”. Tenho de tentar algum truque, talvez imaginar que um alienígena fez a pergunta.

A coisa mais importante da literatura é o Pacto Ficcional, embora o escritor o mantenha invisível e nenhum leitor ainda o respondeu objetivamente. Todos os romances e contos são inventados. Saem da cabeça do escritor e a verossimilhança é totalmente livre, depende do Pacto. O escritor mostra o livro ao leitor e afirma: esta história, como a de todos os romances é inventada. Você, leitor, sabe que ela saiu da minha imaginação. Entretanto você leitor, vai ler esta história como se fosse absolutamente verdadeira. Vai olvidar completamente que eu a inventei. Você vai desprezar ou talvez odiar algum personagem, mas vai amar um outro, talvez a heroína, vai sofrer com ela suas vicissitudes. Combinado?

O leitor sempre responde SIM, mas essa afirmativa crucial de acreditar na história vai depender da qualidade do autor. O romancista precisa convencer o leitor. Nenhum leitor acredita na história, de graça. Para convencer um leitor que uma história inventada é verdadeira, nós escritores, sabemos quanto sacrifício isso exige. Temos de escrever bem, temos de possuir o instrumento. Uma caneta muito afiada, uma tecla de computador capaz de arrancar o botão da blusa da menina leitora e acariciar ali perto do coração, até que uma lágrima pingue no seio nu e provoque um suspiro de emoção da leitora.

Ademir Pascale: Quais dos seus livros mais lhe marcou e por quê?

André Carneiro: Vejo que não respondi sobre as Confissões. Vou tentar, misturo com a oitava pergunta.

Inevitavelmente contos e romances são projeções do autor, ou de sua vida, às vezes muito bem disfarçadas, ou não. Geralmente marcantes para nós são os livros que se basearam em nossa realidade ou

em fatos reais. Em Syrene eu me refiro “ao bom burguês” como os jornais apelidaram o alto funcionário do Banco do Brasil que deu um enorme desfalque e o entregou nas mãos do Mr8 que lutava com armas contra o golpe militar. Também em “Seqüestro” descrevi uma inicial exata realidade para depois inventar o meio e o fim. “A Grande Obra” sempre foi o apelido da Alquimia. Como esta palavra não é dita no conto, os que nunca leram sobre os segredos dos alquimistas terão dificuldade para entendê-lo. Em “Cartas Mágicas” descrevo quase inteiramente a vida de um amigo jogador profissional.

Não aprecio estas minhas explicações e menos ainda quando resenhadores simplesmente descrevem o enredo de um conto. Felizmente tornam-se raras as sinopses comerciais de filmes, onde histórias complicadas são resumidas em cinco linhas. Ou os romances clássicos que o Reader Digest expreme em três páginas.

Ademir Pascale: Nada melhor do que pedir dicas para um grande mestre como você: como os interessados que desejam ingressar na literatura, devem proceder para publicar suas obras? Existe uma receita específica?

André Carneiro: Sim, existe uma receita, uma espécie de tempero que carrega um original pelas portas de uma gráfica e deposita as folhas impressas, das livrarias para as mãos dos compradores. Esse tempero mágico chama-se QUALIDADE. Qualidade do assunto, do estilo, do desenvolvimento. Os iniciantes têm de se conformar, esse tempero só se obtém escrevendo bastante, cada vez mais. Graciliano Ramos era prefeito de uma cidadezinha nordestina. No fim do ano mandou para o Rio um relatório sobre a cidade pedindo verbas para melhoramentos. Havia um editor por ali e disse: Este camarada escreve muito bem, deve ter um romance já escrito. Escreveu perguntando. Graciliano tinha. Assim publicou seu primeiro livro, só porque escrevia bem. Por isso quem quer ser escritor, deve escrever bem. O resto é fácil. Para subir de emprego, de prefeito para autor é só pedir verbas para a cidade, muito bem redigidas...

Ademir Pascale: Existem novos projetos em pauta?

André Carneiro: Sim, muitos. Vivo anunciando o desejo de fazer filmes de pesquisa artística. Até agora não apareceu ninguém para participar. Penso em escrever cada vez melhor. Não me importo, até me esforço para sofisticar. Há leitor que me diz: não entendi nada.

Não sou um escritor popular. Segundo Kafka, muitos ficam para fora do castelo.

PERGUNTAS RÁPIDAS:
Um livro: Um seria uma injustiça. Mas não fica bem citar 20 ou 30.
Um(a) autor(a): Exatamente os 30 citados.
Um ator ou atriz: Lembro de alguns do cinema mudo e outros do falado.
Um dia especial: Lembro de semanas, meses, até anos

Ademir Pascale: Amigo, mais uma vez lhe agradeço pela gentileza da entrevista. Desejo-lhe muito sucesso.

André Carneiro: Retribuo o seu agradecimento com um espelho belga de alto aumento.

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