sábado, 19 de novembro de 2011

MIOLO DO MEU NOVO LIVRO "ENCRUZILHADA"

Sumário e página 11 do meu livro Encruzilhada
A diagramação do meu novo livro "Encruzilhada" ficou excelente. Gostei muito do trabalho do diagramador Douglas Eralldo. A capa feita pela Carolina Myllius também está sendo bem elogiada, assim como a  revisão do Daniel Borba, impressão da Literata, minha história, etc. Fiquei muito feliz com este livro, o que gerou inspiração para escrever outro (o título ainda é segredo, mas estou ansioso para divulgar :). Enquanto isso trabalho em mais dois projetos paralelos de coletânea, sendo uma delas intitulada "Passado Imperfeito", que será publicada pela Editora Argonautas no início de 2012. 
O lançamento do meu romance "Encruzilhada" e da coletânea que organizei "Metamorfose II - Os Filhos de Licaão", será no dia 03/12/11 na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista, nº 509, das 15h30 às 18h30. Compareça  e garanta o seu exemplar autografado :)
Página 11 do meu livro Encruzilhada

CONCORRA A TRÊS EXEMPLARES DO LIVRO "CIDADE DE VIDRO"

Em parceria com a Galera Record, sortearemos (concurso cultural) 03 exemplares do livro "Cidade de Vidro - Os Instrumentos Mortais", resenhado recentemente por mim neste blog. 

E para concorrer é simples:
- Siga os dois twitters listados abaixo:
- Galera Record: Clique aqui.
- Ademir Pascale: Clique aqui.

- Dê RT no Twitter usando a seguinte frase: @galerarecord e @ademirpascale estão sorteando 03 exemplares do livro "Cidade de Vidro". Participe: http://kingo.to/TGn
Pronto. A promoção vai até o dia 27/11 às 22h. Divulgaremos neste blog os nomes dos três ganhadores no dia 28/11. Entraremos em contato via Twitter, mas se possível, pedimos aos participantes para que deixem os seus e-mails neste post, além dos seus endereços do Twitter, pois isso facilitará o nosso contato :)

OBS.: o sorteio será realizado no site SORTEIE.ME. A Galera Record ficará encarregada em enviar os exemplares aos ganhadores.

Saiba mais sobre o livro "Cidade de Vidro" no site da Galera Record. 

Boa sorte!

@ademirpascale

CHARLES CHAPLIN

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."
Charles Chaplin (1889-1977)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NOVA RESENHA DO MEU LIVRO "ENCRUZILHADA" NO BLOG DO LIVRO

Foi publicada hoje pela Laila Graf Galvão uma resenha sobre o meu novo romance "Encruzilhada". Acesse o Blog do Livro e leia na íntegra: clique aqui.
@ademirpascale

ROBERT JOHNSON E O MEU LIVRO ENCRUZILHADA

Robert Johnson (1911-1938)
Robert Johnson (1911-1938) foi a maior figura da história do Blues, tendo influenciado importantes artistas, como Eric Clapton, Led Zeppelin, Bob Dylan, The Rolling Stones,  Johnny Winter, entre outros. Muitas pessoas nunca ouviram falar sobre este jovem músico, mas existem referências sobre ele no filme de 1986, intitulado "Crossroads". Parte da sua história também é contada na série televisava "Supernatural", mais precisamente no episódio 8, da segunda temporada (sim, Robert Johnson não é uma criação da série Supernatural. Ele realmente existiu). Mas além do seu carisma e talento no Blues, algo chama a atenção dos curiosos e estudiosos do   sobrenatural: segundo relatos e registros Robert só conseguiu adquirir sucesso no Blues após ter realizado pacto com o demônio numa encruzilhada. Estudando este caso, tive a grande inspiração em escrever o romance Encruzilhada. A minha história é diferente e não é baseada na vida de Robert, mas fiz questão de incluir uma faixa bônus sobre ele na página 101 do livro. Leia um pequeno trecho: "Dizem que um jovem norte-americano, de nome Robert Johnson (1911-1938), tocava vilão como ninguém: um som mágico, irreverente e que contagiava quem quer que fosse. Dizem também, que numa noite qualquer, antes do seu sucesso no Blues, levou o seu violão numa encruzilhada, e que um homem negro, muito alto e forte surgiu do nada, pediu o seu instrumento emprestado e afinou as suas cordas. Johnson deixou o fato registrado na faixa de 1937, intitulada Me and the Devil Blues."
Lápide de Johnson e a figura do seu violão mágico
Além da faixa bônus, Robert Johnson também é citado em alguns outros trechos do meu livro. E para os que possuem uma certa curiosidade no sobrenatural, como este que vos escreve...(rs), estarei no dia 03/12/11 (sábado) na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, nº 509, das 15h30 às 18h30, autografando o livro Encruzilhada e a coletânea Metamorfose II: Os Filhos de Licaão. Compareça.
OBS.: quem não puder comparecer no lançamento, poderá adquirir o livro Encruzilhada diretamente comigo, autografado e com frete grátis, por apenas R$ 20,00 (nas livrarias está saindo por R$ 25,00). O envio do exemplar é imediato. Ainda tenho alguns exemplares desta primeira edição. Para solicitar e saber mais detalhes, basta escrever um e-mail para: amigosdocranik@ig.com.br ou ademir@cranik.com.
@ademirpascale

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

CIDADE DE VIDRO - OS INSTRUMENTOS MORTAIS - CASSANDRA CLARE

Recebi o livro “Cidade de Vidro” da Galera Record e confesso que fiquei impressionado com a qualidade da capa que parece projetar, ao reflexo da luz, cacos de vidro. Em palavras bregas e antiquadas, o livro é um tijolo de 474 páginas...(rs), das quais foram lidas em apenas quatro dias.  Não sou muito fã da Saga Crepúsculo, pois logo na capa já encontrei as palavras da própria Stephenie Meyer: “Queridos Edward e Jacob, adoro vocês dois, mas vou passar o fim de semana com Jace. Desculpe! Com amor...” Inicialmente, a impressão que tive era a de encontrar algo semelhante ou um pouco melhor que a Saga Crepúsculo, já que não li os antecessores “Cidade dos Ossos” e “Cidade das Cinzas”. Mas fiquei feliz com a história criada por Cassandra Clare, e lendo a sua biografia, descobri que ela, embora filha de americanos, nasceu no Teerã, Irã, tendo viajado desde criança por vários lugares, como Himalaia, França, Inglaterra, Suiça, etc. Isso já é um destaque para um autor, pois a vivência e  experiências pessoais contam muito para uma história bem desenvolvida. Cassandra também mostra ser fã e estudiosa de seres bíblicos, e destaco duas das epígrafes da obra: “O homem nasce para a tribulação como as faíscas voam para cima” - Jó 5:7, além de uma do escritor John Milton (1608-1674), autor do livro “O paraíso perdido”, do qual sou fã e cheguei a mencioná-lo em meu romance “O Desejo de Lilith” (Draco, 2010). Conhecendo a biografia da autora e lendo as primeiras epígrafes, fui impulsionado em continuar a leitura com mais vivacidade (li mais de 100 páginas por dia). Não gosto de spoilers, portanto não comentarei sobre o enredo do livro, mas posso destacar a protagonista Clary, que é o destaque, a mais bem trabalhada da obra. Cassandra Clare também soube trabalhar bem a homosexualidade com os personagens Magnus e Alec, algo ainda difícil de encontrar em livros, mostrando que para o amor não existem limites.
Um livro bem escrito, divertido e romântico. Garanto que é uma boa diversão para os leitores do gênero fantástico. Agora tenho que ler “Cidade dos Ossos” e “Cidade das Cinzas”...(rs).
Saiba onde comprar o livro: Clique aqui. 
@ademirpascale 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PINOCCHIO - 1928

A capa ao lado (acabei de digitalizar) é do livro italiano ilustrado do Pinocchio, do ano de 1928, de Carlo Collodi, com ilustrações de Attilio Mussino. Meu avô Andrea (André) Pascale veio lendo exatamente este livro em sua viagem da Itália para o Brasil. Guardo este exemplar sempre com muito carinho, pois certamente ele carrega muitas boas lembranças.  Já vasculhei  toda a internet e a única edição mais próxima que encontrei foi a do ano de 1933. A minha é  cinco anos mais antiga. Veja a edição de 1933 à venda no Ebay,  clique aqui.  (o meu exemplar eu não vendo, pois não tem preço :)). OBS.: o primeiro título das aventuras de Pinocchio foi Storia di un burattino (História de um boneco). @ademirpascale

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

11/11/11 - SEXTA-FEIRA

Amanhã será 11/11/11. Somando cada dezena teremos o nº 33 que x 2 será 66. Somando cada unidade teremos o n º 6. Juntando tudo teremos 666. Detalhe: amanhã será sexta-feira. Mero acaso ou cálculos de minha mente doentia?...(rs)
@ademirpascale

NOVA SÉRIE DE HORROR DA FOX: AMERICAN HORROR STORY

A Fox apresentou neste mês de outubro o primeiro capítulo da série de horror "American Horror Story", que é um prato cheio para quem curte histórias de horror e suspense.  Eu poderia até classificar a série como uma homenagem ao clássico "Além da Imaginação" (1959) que além de horror, trabalhava também com a ficção científica, diferenciando neste item, além de que tudo indica que todos os capítulos da séria serão centrados na família Harmon.

Sinopse: American Horror Story, co-criado pelos antigos produtores executivos de Nip/Tuck e atuais co-criadores/produtores executivos de Glee, Ryan Murphy e Brad Falchuck, gira em torno dos Harmon, uma família que se muda de Boston para Los Angeles, para esquecer o seu passado.

O elenco de estrelas conta com Dylan McDermott como Ben Harmon, um psiquiatra; Connie Britton como Vivien Harmon, esposa de Ben; Taissa Farmiga como Violet, a filha adolescente de Harmon; Jessica Lange no seu primeiro papel protagônico na TV como Constance, a vizinha dos Harmon; Evan Peters como Tate Langdom, um dos pacientes de Ben; e Denis O’Hare como Larry Harvey.

Acesse o site oficial da série, clique aqui.
@ademirpascale

sábado, 5 de novembro de 2011

EVELINE - JAMES JOYCE (1882-1941)

Existem alguns contos que são os melhores entre os melhores. Posso listar alguns dos quais li centenas de vezes, talvez uns seis ou sete contos. Entre eles está "Bliss", da escritora Katherine Mansfield. História do Parente Pobre, de Charles Dickens. A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe. E "Eveline, de James Joyce. Eis o conto:

EVELINE

Ela sentou-se à janela para ver a noite invadir a avenida. Encostou a cabeça na cortina e o odor de cretone empoeirado encheu-lhe as narinas. Sentia-se cansada.

Poucas pessoas por ali passavam. O sujeito que morava no fim da rua passou a caminho de casa; ela ouviu seus passos estalando na calçada de concreto e em seguida rangendo sobre o caminho coberto com cascalho em frente às casas vermelhas. Tempos atrás havia ali um terreno baldio onde eles brincavam toda noite com os filhos dos vizinhos. Mais tarde um indivíduo de Belfast comprara o terreno e construíra casas — mas não eram casas pequenas e escuras como aquelas em que eles moravam; eram casas vistosas de tijolo e com telhados luzidios. As crianças que moravam na avenida costumavam reunir-se para brincar naquele terreno — crianças das famílias Devine, Water, Dunns, o pequeno Keogh, que era manco, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: já estava crescido. O pai dela muitas vezes enxotava-os do terreno com sua bengala de madeira preta; mas geralmente o pequeno Keogh montava guarda e dava o alarme quando avistava o homem se aproximando. Apesar de tudo consideravam-se bastante felizes naquela época. Seu pai ainda não estava tão mal e, além disso, a mãe ainda estava viva. Isso tudo acontecera há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe estava morta. Tizzie Dunn também morrera e a família Water havia retornado à Inglaterra. Tudo se modifica. Agora era a vez dela ir embora, como os outros, ia sair de casa.

Casa! Correu os olhos pela sala, revendo todos os objetos conhecidos, por ela espanados uma vez por semana há tantos anos, e perguntou-se de onde vinha tanta poeira. Talvez jamais voltasse a ver aqueles objetos conhecidos dos quais jamais imaginou separar-se um dia. Contudo, durante todos aqueles anos ela nunca viera a saber o nome do padre cuja fotografia amarelada se encontrava pendurada na parede acima da pianola quebrada, ao lado da gravura em louvor à beata Margarida Maria Alacoque. O padre fora colega de escola do pai dela. Sempre que mostrava a foto a uma visita ele repetia mecanicamente a mesma frase:

— Ele está em Melbourne agora.

Concordado em partir, em deixar a própria casa. Teria sido uma decisão sensata? Tentou analisar cada lado da questão. Em casa ao menos tinha um teto e comida; vivia entre pessoas que conhecia desde criança. É bem verdade que o trabalho era pesado, tanto em casa quanto no emprego. O que diriam na loja quando descobrissem que ela fugira de casa com um sujeito qualquer? Que era uma idiota, talvez; e sua vaga seria preenchida através de um anúncio no jornal. Miss Gavan ficaria bem satisfeita. Sempre implicara com ela, especialmente quando havia gente em volta.

— Miss Hill, não está vendo estas senhoras esperando?

— Mexa-se, Miss Hill, por favor!

Ela não derramaria muitas lágrimas por deixar a loja.

Em seu novo lar, num país distante e desconhecido, tudo seria diferente. Estaria casada — ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada como a mãe o fora. Mesmo agora, que estava com mais de dezenove anos, sentia-se às vezes ameaçada pela violência do pai. Sabia que tinha sido isso a causa daquelas palpitações. Quando eram crianças ele nunca havia batido nela, conforme batia em Harry e em Ernest, porque ela era menina; mas ultimamente passara a ameaçá-la e a dizer o que faria com ela não fosse a lembrança da mãe falecida. E agora não havia mais ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que trabalhava com decoração de igrejas, estava quase sempre ausente, viajando pelo sul do país. Além do mais, o inevitável bate-boca sobre dinheiro todo sábado à noite começava a deixá-la exausta, mais do que qualquer outra coisa. Ela sempre entregava o salário inteiro — sete shillings — e Harry sempre enviava o que podia mas o problema era conseguir arrancar dinheiro do pai. Ele dizia que ela desperdiçava dinheiro, que não tinha juízo, que não lhe daria o seu dinheiro suado para ser jogado fora, e dizia muito mais, pois geralmente ficava em péssimo estado nas noites de sábado. Contudo, acabava dando-lhe o dinheiro e perguntava-lhe se ia ou não comprar as provisões para o jantar de domingo. Então ela era obrigada a sair correndo para o mercado, segurando firme a bolsa preta de couro enquanto abria caminho na multidão com os cotovelos, e voltava para casa tarde, carregada de pacotes. Trabalhava pesado para manter a casa em ordem e garantir às duas crianças que haviam ficado sob os seus cuidados a oportunidade de freqüentar a escola devidamente alimentadas. O trabalho era pesado — uma vida difícil — mas agora que estava prestes a deixar tudo para trás não considerava a vida que levava de todo indesejável.

Estava prestes a começar a explorar uma outra vida ao lado de Frank. Frank era um homem bom, viril, amoroso. Concordara em fugir com ele na barca noturna para tornar-se sua esposa e viver ao seu lado em Buenos Aires, onde ele possuía uma casa à espera dela. Com que nitidez se recordava da primeira vez em que o vira! Ele alugava um quarto numa casa na rua principal, que ela costumava freqüentar. Tudo parecia ter acontecido há apenas algumas semanas: ele parado no portão, com o boné no cocuruto da cabeça e o cabelo despenteado caído sobre a testa bronzeada. Então começaram a se conhecer melhor. Ele costumava esperá-la todas as noites à porta da loja para acompanhá-la até em casa. Levou-a para assistir The bohemian girl e ela ficou radiante por sentar-se ao lado dele num setor do teatro onde não costumava ficar. Ele adorava música e tinha uma voz razoável. As pessoas notavam que os dois estavam namorando e, sempre que ele cantava a canção sobre a jovem que amava o marinheiro, ela sentia um agradável acanhamento. Ele gostava de chamá-la de Poppens, carinhosamente. A princípio a idéia de ter um namorado não passara de uma empolgação, mas logo começou a gostar dele de verdade. Frank contara-lhe histórias de países distantes. Começara a vida como taifeiro ganhando uma libra por mês a bordo de um navio da Allan Line com destino ao Canadá. Disse-lhe também os nomes de todos os navios em que viajara bem como de diversas companhias de navegação. Velejara pelo estreito de Magalhães e contara-lhe histórias a respeito dos terríveis habitantes da Patagônia. Estabelecera-se em Buenos Aires, dizia ele, e voltara à velha terra natal apenas para passar férias. O pai dela, obviamente, descobrira o namoro e a proibira de sequer dirigir-lhe a palavra.

— Conheço bem esses marinheiros — ele dizia.

Um dia o pai discutira com Frank e a partir de então ela fora obrigada a encontrar-se com o namorado às escondidas.

A noite aprofundava-se na avenida. O reflexo branco de duas cartas que tinha ao colo se tornava indistinto. Uma era para Harry; a outra, para o pai. Ernest era seu irmão preferido mas também gostava de Harry. O pai estava ficando velho, dava para notar; sentiria a falta dela. Às vezes, ele sabia ser agradável. Há pouco tempo, quando ficara acamada um dia inteiro, ele lera para ela um conto de terror e preparara-lhe umas torradas. Em outra ocasião, quando a mãe ainda estava viva, fizeram juntos um piquenique em Hill of Howth. Lembrava-se do pai colocando o chapéu da mulher para divertir as crianças.

Estava chegando a hora mas ela continuava sentada à janela, com a cabeça encostada na cortina, aspirando o cheiro de cretone empoeirado. Lá embaixo na avenida ouvia um realejo tocando. Conhecia a canção. Estranho que o realejo surgisse ali naquela noite, como que para lembrá-la da promessa que fizera à mãe, de preservar o lar unido enquanto pudesse. Lembrou-se da noite em que a mãe morrera; era como se estivesse novamente no quarto fechado e escuro do outro lado do hall e lá fora ouvisse a melancólica canção italiana. Na ocasião, deram seis pence ao tocador de realejo e pediram-lhe que fosse embora. Lembrou-se do pai voltando ao quarto da enferma com um andar emproado, exclamando:

— Italianos desgraçados! O que eles querem aqui?

Enquanto divagava, a visão deplorável da vida que a mãe levara tocou-a no fundo da alma — uma vida de sacrifícios banais culminando em loucura. Estremeceu quando voltou a ouvir a voz da mãe repetindo com uma desvairada insistência:

—Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!

Levantou-se num sobressalto de pavor. Fugir! Precisava fugir! Frank a salvaria. Daria uma vida a ela, talvez, quem sabe, até amor. E ela queria viver. Por que haveria de ser infeliz? Tinha direito à felicidade. Frank a tomaria nos braços, a abraçaria. Ele a salvaria.

. . . . . . . . . . . . . . . .

Lá estava ela no meio da multidão ondulante na estação de embarque de North Wall. Ele segurava-lhe a mão e ela sabia que estava se dirigindo a ela, repetindo alguma coisa a respeito das passagens. A estação estava repleta de soldados carregando malas marrons. Através dos largos portões do embarcadouro ela podia ver o vulto negro do navio, atracado ao longo do cais com as vigias iluminadas. Ela nada respondia. Sentia o rosto pálido e frio e, num labirinto de aflição, rezou pedindo a Deus que lhe guiasse, que lhe apontasse o caminho. O navio lançou dentro da névoa um silvo longo e triste. Se partisse, amanhã estaria no mar ao lado de Frank, navegando em direção a Buenos Aires. As passagens dos dois já estavam compradas. Seria possível voltar atrás depois de tudo o que ele fizera por ela? A aflição que sentia lhe provocava náuseas e ela continuava a mover os lábios rezando fervorosamente em silêncio.

Um sino repicou em seu coração. Deu-se conta de que ele lhe agarrara a mão:

— Vem!

Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria. Agarrou-se com as duas mãos às grades de ferro.

— Vem!

Não! Não! Não! Era impossível. Suas mãos agarraram-se ao ferro em desespero. No meio dos mares ela deu um grito de angústia!

— Eveline! Evvy!

Ele correu para o outro lado do cordão de isolamento e a chamou, para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuava a chamá-la. Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstravam qualquer sinal de amor, saudade, ou gratidão.

JOYCE, James. Dublinenses. São Paulo: Siliciano, 1993. 2ª ed. Tradução de José Roberto O’Shea

GRACILIANO RAMOS

"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas."

"Nunca presto atenção as coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeção, instruir-me vedos as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba."

Graciliano Ramos

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ZUMBIS - TERRIR Volume 1

Fui convidado recentemente pelo editor Marcelo Amado, juntamente do escritor Gerson Balione,  para participar do primeiro volume da coleção Terrir da Editora Estronho, intitulado "Zumbis". Gostei do convite, principalmente por apresentar uma proposta diferente (veja ao lado, a capa não é simpática?).

E nas palavras dos editores da Estronho:
"A Série Terrir tem como proposta misturar elementos fantásticos e personagens clássicos, com muito humor e clichês a dar com o pau... Isso mesmo! Clichês serão muito bem-vindos nos contos e quadrinhos que serão selecionados para esta série. Você poderá participar com um conto, com quadrinhos ou ainda com os dois. Cada volume tem seu tema específico.
Tem uma ideia legal e não sabe desenhar nem boneco palito? Forme uma dupla com algum ilustrador e deixe seu lado cômico fluir, mesmo que seja extremamente ridículo, bobo e claro... super clichê.
Os dois primeiros volumes, "Zumbis" e "Assassinos" já estão com as inscrições abertas. Leia atentamente o regulamento e participe!
Organização de Celly Borges e M. D. Amado
Ilustrações das capas, por Anton Brand."

PARTICIPE. SAIBA MAIS, clique aqui.
@ademirpascale

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

RESULTADO DO SORTEIO DOS TRÊS EXEMPLARES "12 DE SETEMBRO"

E os três ganhadores do álbum "12 de Setembro - A América Depois", realizado aqui e sorteado entre os participantes no site Sorteie.me, foram:

@blog_do_livro
@catataz
@gibadois
 
Confira no link: http://beta.sorteie.me/r/es

Entraremos em contato pelo Twitter ou e-mail solicitando o endereço. A Galera Record ficará responsável em enviar os exemplares aos ganhadores.