
Ontem eu tive um dia estressante no trabalho; estava retornando cansado e desanimado para casa. Perco três horas por dia contando com ida e volta. Em São Paulo, nenhum microônibus respeita o limite máximo de passageiros, que é 44, sendo que um dia, no retorno para casa, contei até o número 75, depois parei. Não existe fiscalização, ou se existe não funciona. Os motoristas e cobradores acham que fazem um favor para nós "pagantes" e na maioria das vezes são grosseiros, entopem a lotação (nome certo) e sempre falam para os passageiros passarem a catraca, pois existe espaço de sobra no corredor, um espaço imaginário, pois o único espaço que sobra ali é o do motorista e cobrador que vão folgados durante toda a viagem, conversando sobre futebol, mulheres e problemas pessoais. Mas foi ontem que uma senhora despertou minha atenção: com muita dificuldade, ela tentava distribuir um panfleto, que ninguém aceitou, exceto esse que vos escreve. E com dificuldade para ler naquele recinto apertado, com uma mochila pesada cheia de livros, agradeci, dobrei o panfleto e guardei em meu bolso. A senhora ficou feliz, pois uma pessoa pegou o seu panfleto. Ela deu sinal e desceu da lotação com muita dificuldade, pois várias pessoas estavam paradas na frente da porta traseira. Hoje pela manhã resolvi ler o texto do panfleto, que era uma história de um autor desconhecido. Modifiquei algumas coisinhas no texto, mas aprendi uma coisa com ele, que devo continuar minha luta em busca dos meus objetivos.
Com um título que eu criei e algumas modificações no texto, eis a história:
BARBEIROS EXISTEM?
Um homem foi ao cabeleireiro para cortar o cabelo (óbvio). Para quebrar o gelo, ele começou a conversar com o profissional de cabelos oxigenados. Conversa vem, conversa vai, até que começaram a conversar sobre Deus... Ouve uma pequena discussão:
- Eu não acredito que Deus exista, como você fala - disse o barbeiro.
- Por que você diz isto? - perguntou o cliente.
- Bem, é muito simples: você só precisa sair na rua para ver que Deus não existe. Pô, se Deus realmente existisse, você acha que existiriam tantas pessoas doentes? Existiriam crianças abandonadas? Existiriam usuários de drogas? Se Deus existisse, não haveria sofrimento. Eu não consigo imaginar um Deus que permite todas essas coisas.
O cliente pensou por um momento, mas resolveu não prolongar a conversa. O barbeiro terminou o seu trabalho e o cliente saiu do estabelecimento. Neste momento ele viu um homem sentado na calçada com barba e cabelos longos e desgrenhados. Parecia que fazia um bom tempo que aquele homem não cortava os cabelos ou fazia a barba, além de estar completamente sujo. O cliente retornou ao cabeleireiro e disse ao barbeiro:
- Sabe de uma coisa? Barbeiros não existem.
- Oras, como não existem? - disse o barbeiro confuso. - Eu estou aqui na sua frente. Não sou um barbeiro?
- Não! - exclamou o cliente com um brilho diferente nos olhos. - Eles não existem, porque se existissem, não existiriam pessoas com barba e cabelos longos, sujos e desgrenhados como os daquele mendigo.
- Ah, mas barbeiros existem, o que acontece é que as pessoas não me procuram e isso é uma opção delas.
- Exatamente! - afirmou o cliente. - É justamente isso. Deus existe, o que acontece é que as pessoas não o procuram, pois é uma opção delas, e é por isso que há tanta dor e sofrimento no mundo.
Ademir Pascale - @ademirpascale